Pressões e descompressões
Mais uma vez, uma coisa chata, mas interessante do meu ponto de vista... se tiverem paciencia, aconselho a lerem e tecerem, se for caso disso, comentários
No passado domingo, dia 3 de Outubro, o Professor Martelo (Marcelo Rebelo de Sousa) teceu, como habitualmente, os comentários que faz(ia) na TVI. Só que desta vez, houve uma reacção (ou provavelmente uma acção premeditada e pensada com antecedencia) de um ministro do Governo. Nessa terça feira, Marcelo Rebelo de Sousa, após uma reunião com o seu "patrão", decidiu deixar de fazer os comentários, alegadamente por ter sentido uma intervenção subtil do seu patrão no sentido que tivesse alguma contenção na crítica ao governo. Resultado? cinco dias depois das ocurrencias, já ouve se ouve falar em Dissolução da Assembleia (o que provocaria eleições antecipadas).
Mas será que as críticas de uma única pessoa tem um impacto tão grande nos visados? Vamos por partes: temos um governo que tem como norma "controlar", de forma subtil, tanto agencias noticiosas como outros tipos de agencias, com "yes Mans", que façam as vontades todas e não ponham em causa as decisões que o governo tome. Temos um governo que presa e dá muita atenção à "imagem" do seu Primeiro Ministro, com uma equipa de Agentes de Imagem, que recebem ordenados mensais semelhantes ao que muitos ganham num ano (com "13 meses" de trabalho). Temos um Primeiro Ministro que passa a sua carreira como comentador na televisão, que enquanto presidente de camara enchia as ruas de Lisboa (e da Figueira da Foz) com "outdoors" gigantes, publicitando a obra que, meritoriamente, ia sendo feita. Um primeiro Ministro que antes de exercer este cargo (que lhe caíu do céu aos trambolhões) detinha posições em comissões, direcções e fundações várias, que já lhe garantiram um bom "pé de meia" para a reforma, e para a "educação" dos seus filhos.
Ora bem, temos um Primeiro Ministro que valoriza a imagem pessoal e o seu bem estar social... nestas condições, ter um indivíduo como o Marcelo Rebelo de Sousa, a deter um impacto a pelo menos 1,5 milhões de pessoas que todos os domingos o ouviam em directo a tecer os seus comentários, não resta muitas dúvidas que há, de certa forma, um receio que as palavras deste inflijam danos na "imagem" tão peculiar e bem tratada do Sr Primeiro Ministro Santana Lopes. Sendo "política" ou rumo deste governo manter um "controlo" subtil nos agentes de comunicação social, e por acréscimo da opinião pública do país, não resta dúvidas que ter 1,5 milhões de pessoas a ouvir atentamente um "voz off" que pretende danificar a imagem do Primeiro Ministro, vai contra as directivas do governo, e como tal alguma coisa tinha de ser feita.
Também o Marcelo Rebelo de Sousa não é santo... tem "entalada" a rasteira que Santana Lopes e Durão Barroso lhe pregaram à uns anos quando decidiram encará-lo de frente e forçar a sua queda no PSD. Foram eles para o seu lugar, ou melhor, foi Durão Barroso e mais tarde chegou lá, a reboque, Santana Lopes. Não é demais lembrar isto e perceber as razões que levam um militante do PSD a criticar daquela forma um Governo liderado pelo seu partido. Ele tem umas contas a ajustar com o Santana Lopes, como tinha com o Durão Barroso, mas mais subtilmente. Por isso não tem tento na língua, quando se trata de mandar abaixo o seu inimigo.
Duas coisas são factuais. Governo vs Marcelo... e Marcelo vs Governo. Não tenho dúvida que o Governo queria, aos poucos, ir retirando credibilidade ao Marcelo e encetar algumas "gerrilhas" de factos e opiniões contra ele, tentando aos poucos "calar" a sua voz. Marcelo, por outro lado, tinha intenção de danificar a imagem do Primeiro Ministro e de alguns dos seus "braços direitos" no governo. Uma guerra entre um grupo e uma pessoa, que teve um importante revéz nesta semana que passou...
Por precipitação, ou talvez premeditado, no ambito da sua guerra que visava o descrédito do comentador, o governo bateu com a mão na mesa e levantou a voz contra as denominadas "mentiras" (ou não) daquilo que o Marcelo tinha dito naquele domingo. mas este não foi o facto principal. Foi talvez um "sinal" ou uma distracção simples para encobir manobras de bastidores. Na retaguarda, algo se passou que afligiu alguns accionistas da Media Capital, que gere a TVI, como grupo accionista maioritário. Na Terça feira, ao que parece, Miguel Paes do Amaral, um Boss da Media Capital, foi jantar com o amigo e cunhado Marcelo Rebelo de Sousa... nesse jantar/reunião, solicitou ao comentador "contenção" nas críticas ao Governo... o resultado foi a renúncia de Marcelo Rebelo de Sousa ao seu espaço de opinião na TVI.
Consta que alguns accionistas da Media Capital tem negócios pendentes com o Governo... E aqui está o cerne do ataque do Governo. Não é censura aberta, mas é um tipo de censura, inqualificável e que, quanto a mim, perfeitamente justificável para se dar início a um "aperto" ao Governo. Hoje é sexta feira e o Governo está a sentir perfeitamente esse aperto, de todos os lados, inclusivé de zonas de dentro do próprio partido. Marcelo Rebelo de Sousa saíu de cena agora (para mais tarde regressar, de certeza, com mais força).
E com isto vamos andando. De alguma forma, sem problemas porque, vendo bem as coisas, não há nada de "errado", ou melhor, nada que possa ser julgado de ilegal, uma vez que as coisas são feitas de forma subtil. Lê-se nas entrelinhas, mas não se lê abertamente. Pelo que, não há maneira de evitar estes tipos de pressões por parte de quem manda. Temos casos e casos em que o Governo tomou decisões que vão contra os parametros da constituição, mas que, ao mesmo tempo, podem se refugiar na mesma constituição. Ou seja, há uma pessoa que pode meter travão, que é pura e simplesmente o Presidente da República, servindo-se também dos meios que a constituição lhe permite. O Goveno tem de perceber que está numa "corda bamba" e que se mete o pé ao lado, cai... mas como o governo tem cerca de 3 meses de cadeira, ninguem aceita como viável uma dissolução da Assembleia. Santana Lopes sabe e joga com esse facto, e é por isso que aproveita estas situações para praticar o "quero, posso e mando". Felizmente, o travão foi accionado, e hoje, pela primeira vez, ouço falar em dissolução da Assembleia, algo que já deixou o sr Santana Lopes apreensivo...
O que acho ridículo nisto tudo, é que um primeiro ministro se comporte de forma "mesquinha" e preocupada com o que possam falar dele... tou-me a cagar, sinceramente, se o Santana lopes é isto ou aquilo, se é boa pessoa ou não. Pessoalmente, não gosto dele, porque o acho como que um "mercenário" dos tempos modernos, com ambições não para uma sociedade mas simplesmente para o seu umbigo. Como tal, uma pessoa destas não pode ser Primeiro Ministro nem pode ter responsabilidades tão sérias como as tem. Tem competencias, pois tem e se não as tivesse nem da Fundação Luís de Camões poderia estar... Mas ser-se Primeiro Ministro ou Presidente da República implica que o umbigo deve ser deixado na barriga tapado por uma camisa e uma gravatinha, pois aí, as vantagens e as consequencias do que se faz aflige 10 milhões de pessoas. Um Primeiro Ministro não pode estar preocupado prioritariamente com a sua imagem pública, tem apenas e só de governar, coisa que até agora, não se tem visto muito bem, mas em 3 meses não há muita coisa para avaliar, apenas a quantidade de caras novas que já mudaram de Julho para Outubro, em muitas posições de relevancia na área da gestão e da comunicação.
Somos uma sociedade mesquinha e interesseira... pelo menos é assim que se comporta uma classe política que teima em ser "exemplar".
PS.: A censura é uma arma poderosa num governo... e há muitas formas de censurar. O problema na Democracia é que a censura aparece de uma forma invisível muitas vezes. Seguindo o Bom Senso, muitos escolhem "calar a boca", no sentido de não sofrer "represálias" que em democracia podem ser fruto de "burucracias" ou outros esquemas quaisqueres. Há o que se vê e o que não se vê... em democracia a censura aparece no lado que não se vê, mas está lá, em muitas situações da vida e da sociedade.
Manifesto sem nome, Junho de 2004
Escrevi este texto há uns tempos atráz já... é uma reflexão que fiz nessa época, que quis divulgar a outros, não para divertir ou para entreter, mas para fazer pensar... se tiverem paciencia, leiam, mas é um texto um bocado comprido
A vida passa e o que fica são as memórias de quem se foi... Escrevo este manifesto num estado de alma triste e enlutado. Não esperem grandes risos porque hoje não é esse o sentido deste texto.
A morte chega a todos, sem excepção. Umas vezes mais cedo, outras mais tarde... mas não há ninguem que lhe escape. O mais rico dos ricos morre... o mais pobre dos pobres morre... o mais esperto morre, o mais burro morre, o mais forte morre... o mais fraco morre... o mais rápido, o mais lento, o maior, o mais pequeno, o mais velho, o mais novo, o mais belo, o mais feio, enfim... todos, sem excepção, vão acabar por morrer. E no lugar do cheiro, da voz, do corpo, o que fica é simplesmente a memória dessa pessoa. O que fica é a recordação do que essa pessoa fez, para ela e para outros. Todos, mesmo sem quererem, deixam um legado que varia consoante o que se faz. Uns tém direito a ver o seu nome e a sua história retratado ao mais ínfimo pormernor em livros... outros tém direito a breves resumos da sua vida em enciclopédias... Alguns tém direito a ver o seu nome imortalizado numa rua, num animal, numa rocha, numa montanha... outros que se resumem a ver o seu nome numa simples campa, com a data de nascimento e a data de óbito. Outros há que deixam de ter recordação no lugar onde estão enterrados... e ainda há os que morrem e ninguem sabe onde morreram ou como morreram ou mesmo porque morreram.
O porquê de se morrer ninguem entende... mas todos são unanimes em dizer que a morte faz parte da vida. Portanto que fique claro, nós todos vamos morrer um dia, porque todos nós vivemos uma vida. Essa vida pode ser de 100 anos, de 24 anos, de 10 anos, de 2 anos, de 1 mês, de 1 dia... mas a vida não é singular. A vida é algo plural, ou seja, a nossa vida está interlaçada e portanto dependente de outras tantas vidas... dos nossos amigos, dos nossos familiares, dos nossos animais de estimação, de outras pessoas que nem conhecemos, e até de outros animais que nós não gostamos e que, muitas vezes, até nos apetece matá-los nós próprios, como é o caso das moscas e das melgas, por exemplo...
Como tal, a morte está sempre próxima de nós. Mas de maneiras diferentes. Todos nós sabemos que vamos morrer... mas o que dói é saber que os que nos são próximos – amigos, colegas e familiares – também vão morrer um dia. E o sentir que podemos perder alguem que nos é próximo e querido, é a pior razão de existir da morte. A nossa vida está de tal maneira interlaçada junto das vidas daqueles que nos são próximos que perder essas vidas é o pior pesadelo que nós podemos ter. Mas esse pesadelo persegue-nos ao longo de toda a nossa vida, até ao momento em que somos nós que morremos e são os outros (ou talvez não) que sentem na pele um pesadelo tornado realidade.
Como disse, tenho a alma triste e enlutada, porque um amigo meu faleceu nestes dias, de uma forma súbita e inesperada. A dor que se abate no meu coração é ténue, talvez por o facto de as nossas vidas se terem cruzado muito no passado, mas nunca de uma forma tão solene e forte. Fomos amigos, falavamos muito, conversávamos muito, riamo-nos muito, brincamos juntos em criança... sinto pesar e dor na partida deste amigo... e muita saudade também. Mas talvez o facto de actualmente só nos vermos apenas quando nos cruzávamos na rua, a minha dor não passa disto... a tristeza que sinto que deveria sentir, não a sinto com tanta força. E sinto-me um mau amigo por isso. Este amigo faz-me falta, e sinto a falta dele, mas a tristeza que sinto é tão ténue, tão ligeira... como se fosse apenas um “até um dia”, e não um “adeus” definitivo. Mas a dor que esta morte provocou noutros é tão forte, tão dura, que fico envergonhado não a sentir.
Quando me recordo dele, vém à cabeça situações vividas em criança, com nós aqui na minha rua, numa altura em que poucos carros andavam na estrada ainda. A estrada era nossa, de putos de idade entre os 6 e os 10... era o nosso campo de bola. Num lado duas camisolas e dois bones faziam de balizas, do outro eram duas moxilas... dum lado 4 grandalhões de 8 e 9 anos, do outro 4 meia lecas (eu e mais 3 de 6 ou 7 anos). Era os 1ª classe contra os 3ª classe... e a jogatana que se seguiu... sei que levamos um tareão, também eramos mais novos. Mas o que fica é a alegria dele a jogar, não para ganhar, para para se rir e divertir. Nós, os putos, lá estávamos a jogar sózinhos, quando chega ele e os amigos... vinham da escola e queriam jogar à bola antes de jantar. Então decidiram “desafiar” os putos da 1ª classe que estavam ali. E nós aceitamos, porque tavamos fartos de “jogar à parede”. E a partir daí, mesmo na escola, ficou marcada uma amizade, não daquelas fortes, mas de respeito. Sempre que nos víamos, era uma festa... apertos de mão, palmadas nas costas, meter a conversa em dia... foi assim desde esse jogo, até ao dia de ontem em que ele morreu, horas depois de ter estado comigo, à porta de casa, a contar que tinha vindo “lá de baixo (alentejo)” e que ia descansar para ir trabalhar... perguntou-me pela escola, coisa que invejava em mim, o facto de não desistir dos estudos... e acabou a dizer até logo, e que provavelmente ainda nos viamos hoje, porque ele era motorista dos TCB e dizia que ia ficar na carreira 2, naquele dia... ia entrar ao serviço às 16h... eram 15 h quando a mãe deu com ele num sono do qual não ia mais acordar, para grande pesar de todos os que lhe eram mais próximos.
É isto que me vem à cabeça quando penso neste amigo. Não numa tristeza grande, não num cantil de pranto, não um irracional grito de injustiça... apenas e só um sentimento de que perdi um amigo, uma saudade grande e sobretudo a recordação desta pessoa. E o que recordo? Os jogos de futebol, o ele me defender dos rufias mais velhos na escola primária, dos calduços que ele me dava quando me apanhava desprevenido, das inúmeras conversas que davam sempre para rir e divertir, das aulas de técnicas de química, do 11º ano, em que ele e o prof desatavam em conversas de chacha e teorias e contra teorias que ele levantava, que punham toda a gente na sala a rir... É disto que me lembro dele, e em vez de me dar para chorar, dá-me vontade de sorrir porque não me recordo dele de outra maneira.
De certeza que o nome dele não vai ser dado a uma rua... de certeza que não vai ter o nome numa enciclopédia e que não vão fazer bibliografias sobre a curta vida do João Paulo Rosas. Mas todos os que com ele estiveram não vão perder estas memórias que tém dele. E sem dúvida que estas memórias são mais importantes de serem lembradas do que todas as que eventualmente poderiam ser colocadas num livro. A vida é isto mesmo. Não é o que lemos, é o que vivemos com essas pessoas que se vão. Muitos confudem a vida com história... a história retratata e relembra os feitos dos que já partiram. Mas mais importante de ver o nome gravado num livro de História é ter as pessoas com quem se viveu e conviveu ao longo da sua vida relembrarem aspectos significativos da sua personalidade. E estes são os verdadeiros epílogos para as vidas que deixam de estar entre nós. Não há qualquer vida que possa ser lida e relembrada... há as vidas que se vão e cuja partida faz com que dentro de nós, uma flash back seja iniciado e assim as memórias mostram-se bem vivas.
E essa é a prova que se viveu uma vida: as memórias que os vivos mantém vivas e relembram no adeus. Tenha ela sido de 100 anos, 24 anos, 10 anos, 2 anos, 1 mês, 1 dia, o que for... foi uma vida vivida. Estou a terminar mas tenho de recordar a história de um rapaz de 8 anos que certo dia me contou uma história sua... de ter ido ver o seu “maninho” Rui ao cemitério, que se fosse vivo hoje tinha 14 anos. Ele nunca conheceu o seu mano, que morreu com meses de idade ainda. Mas é notório que a mente dele sentia, naquela conversa, a sua falta... mais uma vez a prova que o Rui, apesar de curta, viveu uma vida e ajudou outros na vida deles...
Esta foi a minha forma de lembrar um amigo que tive e que faleceu... não é um manifesto como os outros, é mais uma reflexão que tive de fazer, não para voces, mas para mim próprio e para outros que o conheciam também. No entanto, de certa forma, é um texto que até pode ser bem aproveitado por aqueles que o lerem. Daí o ter decidido enviar para todos voces...
Um abraço a todos
Um abraço a ti João, que, onde quer que estejas, sei que também vais ler este texto... Fica bem e até sempre!!