A ditadura democrática
O que todos nós, no ímpeto sabiamos ser mais provável, aconteceu: Cavaco foi eleito à primeira volta. Eu confesso que estava à espera que as alternativas fossem capazes de roubar essa eleição à primeira volta do Cavaco, mas estava enganado... ou melhor, no fundo tambem sabia que essa hipótese era algo remota, mas acreditava ser possível..
E nada mais há a dizer... vamos continuar com o sujeito que durante mais tempo permaneceu em lugar de poder, no nosso país. Foi 10 anos primeiro ministro e prepara-se para ser 10 anos presidente da república. Nada mais a para dizer.
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Cavaco foi sempre um oportunista, aliando sorte e saber. Aproveitou uma moção de censura, em 1987 para fazer caír o seu governo minoritário e para ser reeleito com maioria absoluta, permitindo-lhe governar com uma liberdade então única na jovem democracia portuguesa.
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Foi ele que criou o IRS e o IRC. Foi ele que começou a privatizar as várias empresas públicas. Gostaria que se verificasse, que empresas compraram que empresas, e que pessoas faziam de "testa de ferro" dessas tambem empresas. Liberalizou-se a Comunicação Social (nasceu a SIC, imaginem lá, de um tal Francisco Pinto Balsemão). Reformas nas leis laborais e agrárias. Entrou muito dinheiro da então CEE e começou tambem a entrar mais dinheiro, fruto de cada vez mais impostos e cada vez mais taxas e contribuições dos contribuintes, o que permitiu empreender dar início a grandes projectos de obras públicas. Centro Cultural de Belem, com uma derrapagem de quase o dobro do custo inicial, é um claro exemplo. Ponte Vasco da Gama, com outra "derrapagem" enorme (embora aí, responsabilidades partilhadas com governo PS), Linhas férreas nas áreas metropolitanas de lisboa e porto e melhoramento das ligações longo curso, Auto estradas com fartura, entre outras coisas. Coisas boas, coisas más, coisas boas para os amigos.
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Do ponto de vista das coisas boas, houve muitas que ainda bem que se fizeram. A ponte vasco da Gama e a requalificação na zona oriental de lisboa, foi muito bom. A requalificações das grandes vias de comunicação. Uma televisão privada. Entre outras coisas, foram boas medidas, boas opções. O que é certo é que, apesar da certeza de se terem tratado de boas opções, é clara a forma como se aproveitaram tais acertos para encher o bolso a amigos, "vendendo-lhes" parte dos trabalhos e acabando por pagar mais caro, permitindo-se assim as chamadas "derrapagens" nada subtis, extraviando verbas que tanta falta nos fazem agora. Muitas vezes, quando se podia pagar 20, chegava-se a pagar 60... e começou aí (não acabou) a doença que aflige, actualmente, o nosso país. O esbanjamento das contas públicas.
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E o problema reside exactamente nesse problema que é o facto de que o seu governo ter "estreado" os nomes de políticos que lucaram bastante com a própria política. Alguns só pelo facto de terem sido nomeados para uma qualquer função de chefia numa associação, fundação ou mesmo empresa do estado, ganhavam o direito de reforma. E são muitos, nesta altura, sobretudo antigos e correntes membros/amigos do PSD, que se aproveitaram desse facto e agora podem descansar com 2 ou 3 pensões de reforma milionárias. Facto é que sujeitos como o Pedro Santana Lopes, tachista de profissão, só começaram a surgir depois da maioria absoluta PSD/Cavaco Silva, e agora não são poucos os que, aos 50 anos, já gozam na plenitude de uma reforma dourada... outros nem depois de reformados, aos 65, podem parar de trabalhar...
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Os hábitos criaram-se nessa altura e como uma verdadeira doença, disseminaram-se pela sociedade portuguesa. E veio o governo PS, e a coisa manteve-se... voltou um governo PSD, e manteve-se... e agora colhemos os efeitos a longo prazo que, a natureza humana, egoísta como é, se recusa a mudar. Pudera, quem pode mudar esse estado de coisas, é quem está ou vai estar beneficiado por elas. Então, os outros que cortem os seus ordenados, os outros que paguem impostos, os outros que se fodam... Vivemos numa ditadura democrática. Ditadura porque, apesar de contraditório numa democracia, as águas e os ventos de mudança estão parados, sem sítio para correr. Vivemos parados no tempo durante uns necessários 40 anos. E estamos tambem parados no tempo há já 20 anos, e continuaremos enquanto um povo não voltar a perceber que, como antes do 25 de abril, continua a ser um peão nas mãos de meia dúzia de sujeitos.
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Esta não é certamente a democracia badalada, mas talvez seja aquela que nós, portugueses, merecemos ter... como mais uma vez demonstramos, elegendo para o seu último mandato e cargo político, Hanibal Cavaco Silva, o símbolo desta democracia que gangrenou no momento em que se lhe assegurou a primeira maioria absoluta no parlamento.

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