sexta-feira, outubro 08, 2004

Pressões e descompressões

Mais uma vez, uma coisa chata, mas interessante do meu ponto de vista... se tiverem paciencia, aconselho a lerem e tecerem, se for caso disso, comentários
No passado domingo, dia 3 de Outubro, o Professor Martelo (Marcelo Rebelo de Sousa) teceu, como habitualmente, os comentários que faz(ia) na TVI. Só que desta vez, houve uma reacção (ou provavelmente uma acção premeditada e pensada com antecedencia) de um ministro do Governo. Nessa terça feira, Marcelo Rebelo de Sousa, após uma reunião com o seu "patrão", decidiu deixar de fazer os comentários, alegadamente por ter sentido uma intervenção subtil do seu patrão no sentido que tivesse alguma contenção na crítica ao governo. Resultado? cinco dias depois das ocurrencias, já ouve se ouve falar em Dissolução da Assembleia (o que provocaria eleições antecipadas).
Mas será que as críticas de uma única pessoa tem um impacto tão grande nos visados? Vamos por partes: temos um governo que tem como norma "controlar", de forma subtil, tanto agencias noticiosas como outros tipos de agencias, com "yes Mans", que façam as vontades todas e não ponham em causa as decisões que o governo tome. Temos um governo que presa e dá muita atenção à "imagem" do seu Primeiro Ministro, com uma equipa de Agentes de Imagem, que recebem ordenados mensais semelhantes ao que muitos ganham num ano (com "13 meses" de trabalho). Temos um Primeiro Ministro que passa a sua carreira como comentador na televisão, que enquanto presidente de camara enchia as ruas de Lisboa (e da Figueira da Foz) com "outdoors" gigantes, publicitando a obra que, meritoriamente, ia sendo feita. Um primeiro Ministro que antes de exercer este cargo (que lhe caíu do céu aos trambolhões) detinha posições em comissões, direcções e fundações várias, que já lhe garantiram um bom "pé de meia" para a reforma, e para a "educação" dos seus filhos.
Ora bem, temos um Primeiro Ministro que valoriza a imagem pessoal e o seu bem estar social... nestas condições, ter um indivíduo como o Marcelo Rebelo de Sousa, a deter um impacto a pelo menos 1,5 milhões de pessoas que todos os domingos o ouviam em directo a tecer os seus comentários, não resta muitas dúvidas que há, de certa forma, um receio que as palavras deste inflijam danos na "imagem" tão peculiar e bem tratada do Sr Primeiro Ministro Santana Lopes. Sendo "política" ou rumo deste governo manter um "controlo" subtil nos agentes de comunicação social, e por acréscimo da opinião pública do país, não resta dúvidas que ter 1,5 milhões de pessoas a ouvir atentamente um "voz off" que pretende danificar a imagem do Primeiro Ministro, vai contra as directivas do governo, e como tal alguma coisa tinha de ser feita.
Também o Marcelo Rebelo de Sousa não é santo... tem "entalada" a rasteira que Santana Lopes e Durão Barroso lhe pregaram à uns anos quando decidiram encará-lo de frente e forçar a sua queda no PSD. Foram eles para o seu lugar, ou melhor, foi Durão Barroso e mais tarde chegou lá, a reboque, Santana Lopes. Não é demais lembrar isto e perceber as razões que levam um militante do PSD a criticar daquela forma um Governo liderado pelo seu partido. Ele tem umas contas a ajustar com o Santana Lopes, como tinha com o Durão Barroso, mas mais subtilmente. Por isso não tem tento na língua, quando se trata de mandar abaixo o seu inimigo.
Duas coisas são factuais. Governo vs Marcelo... e Marcelo vs Governo. Não tenho dúvida que o Governo queria, aos poucos, ir retirando credibilidade ao Marcelo e encetar algumas "gerrilhas" de factos e opiniões contra ele, tentando aos poucos "calar" a sua voz. Marcelo, por outro lado, tinha intenção de danificar a imagem do Primeiro Ministro e de alguns dos seus "braços direitos" no governo. Uma guerra entre um grupo e uma pessoa, que teve um importante revéz nesta semana que passou...
Por precipitação, ou talvez premeditado, no ambito da sua guerra que visava o descrédito do comentador, o governo bateu com a mão na mesa e levantou a voz contra as denominadas "mentiras" (ou não) daquilo que o Marcelo tinha dito naquele domingo. mas este não foi o facto principal. Foi talvez um "sinal" ou uma distracção simples para encobir manobras de bastidores. Na retaguarda, algo se passou que afligiu alguns accionistas da Media Capital, que gere a TVI, como grupo accionista maioritário. Na Terça feira, ao que parece, Miguel Paes do Amaral, um Boss da Media Capital, foi jantar com o amigo e cunhado Marcelo Rebelo de Sousa... nesse jantar/reunião, solicitou ao comentador "contenção" nas críticas ao Governo... o resultado foi a renúncia de Marcelo Rebelo de Sousa ao seu espaço de opinião na TVI.
Consta que alguns accionistas da Media Capital tem negócios pendentes com o Governo... E aqui está o cerne do ataque do Governo. Não é censura aberta, mas é um tipo de censura, inqualificável e que, quanto a mim, perfeitamente justificável para se dar início a um "aperto" ao Governo. Hoje é sexta feira e o Governo está a sentir perfeitamente esse aperto, de todos os lados, inclusivé de zonas de dentro do próprio partido. Marcelo Rebelo de Sousa saíu de cena agora (para mais tarde regressar, de certeza, com mais força).
E com isto vamos andando. De alguma forma, sem problemas porque, vendo bem as coisas, não há nada de "errado", ou melhor, nada que possa ser julgado de ilegal, uma vez que as coisas são feitas de forma subtil. Lê-se nas entrelinhas, mas não se lê abertamente. Pelo que, não há maneira de evitar estes tipos de pressões por parte de quem manda. Temos casos e casos em que o Governo tomou decisões que vão contra os parametros da constituição, mas que, ao mesmo tempo, podem se refugiar na mesma constituição. Ou seja, há uma pessoa que pode meter travão, que é pura e simplesmente o Presidente da República, servindo-se também dos meios que a constituição lhe permite. O Goveno tem de perceber que está numa "corda bamba" e que se mete o pé ao lado, cai... mas como o governo tem cerca de 3 meses de cadeira, ninguem aceita como viável uma dissolução da Assembleia. Santana Lopes sabe e joga com esse facto, e é por isso que aproveita estas situações para praticar o "quero, posso e mando". Felizmente, o travão foi accionado, e hoje, pela primeira vez, ouço falar em dissolução da Assembleia, algo que já deixou o sr Santana Lopes apreensivo...
O que acho ridículo nisto tudo, é que um primeiro ministro se comporte de forma "mesquinha" e preocupada com o que possam falar dele... tou-me a cagar, sinceramente, se o Santana lopes é isto ou aquilo, se é boa pessoa ou não. Pessoalmente, não gosto dele, porque o acho como que um "mercenário" dos tempos modernos, com ambições não para uma sociedade mas simplesmente para o seu umbigo. Como tal, uma pessoa destas não pode ser Primeiro Ministro nem pode ter responsabilidades tão sérias como as tem. Tem competencias, pois tem e se não as tivesse nem da Fundação Luís de Camões poderia estar... Mas ser-se Primeiro Ministro ou Presidente da República implica que o umbigo deve ser deixado na barriga tapado por uma camisa e uma gravatinha, pois aí, as vantagens e as consequencias do que se faz aflige 10 milhões de pessoas. Um Primeiro Ministro não pode estar preocupado prioritariamente com a sua imagem pública, tem apenas e só de governar, coisa que até agora, não se tem visto muito bem, mas em 3 meses não há muita coisa para avaliar, apenas a quantidade de caras novas que já mudaram de Julho para Outubro, em muitas posições de relevancia na área da gestão e da comunicação.
Somos uma sociedade mesquinha e interesseira... pelo menos é assim que se comporta uma classe política que teima em ser "exemplar".
PS.: A censura é uma arma poderosa num governo... e há muitas formas de censurar. O problema na Democracia é que a censura aparece de uma forma invisível muitas vezes. Seguindo o Bom Senso, muitos escolhem "calar a boca", no sentido de não sofrer "represálias" que em democracia podem ser fruto de "burucracias" ou outros esquemas quaisqueres. Há o que se vê e o que não se vê... em democracia a censura aparece no lado que não se vê, mas está lá, em muitas situações da vida e da sociedade.