segunda-feira, janeiro 10, 2011

Vamos todos comer palha

Portugal importa mais de 60% da carne que os cerca de 10 milhões que cá existem consomem. Este número não é surpreendente... no entanto surpreende o seguinte. Nos últimos dez anos, o défice da nossa balança comercial alimentar disparou 23,7 por cento.
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Cada vez mais estamos dependentes do estrangeiro para os nossos comes e bebes. Há várias razões para isso. Há produtos que, de outra forma, não poderíamos consumir, por não se darem em Portugal. Mas sobretudo, há produtos que, vindos de fora, são mais baratos que os nacionais. Depois há a velha questão das limitações impostas pela União Europeia, para que não sejam produzidos determinados produtos, incentivando que, em contrapartida, se produzam outros.
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Na prática é assim: Portugal só pode produzir, imaginemos, 50 tomates. Em Portugal havia infraestruturas para produzir 60. É dado um subsídio para compensar o facto de não se poder produzir esse extra de 10. Por outro lado, abre-se uma porta. Podem produzir os 60 beterrabas.
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Ora, muitos agarraram-se aos subsídios e não se expandiram. Compraram bons carros, melhoraram as casas, etc, etc... investiram nas suas "personas". Outros, poucos, intestiram para produzir as tais 60 beterrabas. Mas como não conseguiram chegar às 60 beterrabas, não conseguem vender a um preço "competitivo". Ficam mais caros, não vendem tão facilmente. O produto estrangeiro é mais barato e vende-se melhor. Incapazes de vender a um preço que lhes dê o lucro que eles querem, alguns preferem deitar fora o produto. Outros, vendem ao preço que lhes pedem, baixam as margens de lucro.
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Ora, tudo está mal quando se criam limitações, num mesmo mercado, à produção de produtos alimentares... Se há coisa que as pessoas precisam é de comer. Dar subsídios para não se produzir, é um princípio erradíssimo. Conseguem assim controlar, de alguma forma, os preços de determinados produtos mas, como se verifica agora, levantam o interesse em produzir e permitem-se ser ultrapassados por outros mercados, que ao mesmo tempo, se tornam mais competitivos.
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Há dois efeitos contrários, que se começaram a sentir anos mais tarde deste tipo de acontecimentos: Não só deixamos de produzir, como tambem nos hipotecamos quando ficamos dependentes dos outros para comer. É o que se está a passar agora. Há um aumento generalizado os preços dos alimentos, no mercado internacional. Este ano, não basta o aumento do IVA, vamos ter tambem um aumento nas matérias primas e nos produtos alimentares. Tudo vai ficar bem mais caro.
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Se quanto aos combustiveis, infelizmente Portugal não produz petroleo, quanto aos alimentos, confesso que será difícil Portugal ser completamente autosuficiente, ou seja, conseguir produzir o suficiente para não ter de importar nada. A grande verdade é que nunca o foi capaz de fazer, em toda a sua história. Mas uma coisa é precisarmos de importar 20% ou 30% para sobrevivermos... outra é estarmos dependentes em 60%.
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Assegurar monopolios é um risco grande. A industria do petróleo e dos combustiveis já funciona dessa forma. Apesar de várias empresas em concorrencia, a verdade é que a ocupação de determinados espaços é o que determina, aí 60% das vezes, onde é que cada um vai abastecer. Logo, não há necessidade de criar discrepancias muito grandes entre preços... não há concorrencia, na verdade. Infelizmente, o governo não toma medidas para evitar a roubalheira que todos os dias os portugueses sofrem pelas empresas gasolineiras. Agora, permitir que o mesmo se passe no açucar, no cereal e nos diversos produtos alimentares, é encomendar, a longo prazo, uma crise social muito mais drástica e uma consequente revolução.
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Ah, já agora, quem permitiu, inicialmente, que a industria de produção alimentar entrasse por este caminho descendente, foi o nosso actual presidente da república, quando foi primeiro ministro... Começou com ele, com medidas por ele tomadas, para permitir outras coisas, a queda e a mudança de rumo de muitos dos nossos produtores agrículas, piscículas e pecuárias. Um país essencialmente agrícola, em dez anos Cavaco perdeu essa sua força, sobretudo porque se entendeu não valorizar a evolução dessa industria, optando-se pura e simplesmente pelo seu abandono...