Manifesto sem nome, Junho de 2004
Escrevi este texto há uns tempos atráz já... é uma reflexão que fiz nessa época, que quis divulgar a outros, não para divertir ou para entreter, mas para fazer pensar... se tiverem paciencia, leiam, mas é um texto um bocado comprido
A vida passa e o que fica são as memórias de quem se foi... Escrevo este manifesto num estado de alma triste e enlutado. Não esperem grandes risos porque hoje não é esse o sentido deste texto.
A morte chega a todos, sem excepção. Umas vezes mais cedo, outras mais tarde... mas não há ninguem que lhe escape. O mais rico dos ricos morre... o mais pobre dos pobres morre... o mais esperto morre, o mais burro morre, o mais forte morre... o mais fraco morre... o mais rápido, o mais lento, o maior, o mais pequeno, o mais velho, o mais novo, o mais belo, o mais feio, enfim... todos, sem excepção, vão acabar por morrer. E no lugar do cheiro, da voz, do corpo, o que fica é simplesmente a memória dessa pessoa. O que fica é a recordação do que essa pessoa fez, para ela e para outros. Todos, mesmo sem quererem, deixam um legado que varia consoante o que se faz. Uns tém direito a ver o seu nome e a sua história retratado ao mais ínfimo pormernor em livros... outros tém direito a breves resumos da sua vida em enciclopédias... Alguns tém direito a ver o seu nome imortalizado numa rua, num animal, numa rocha, numa montanha... outros que se resumem a ver o seu nome numa simples campa, com a data de nascimento e a data de óbito. Outros há que deixam de ter recordação no lugar onde estão enterrados... e ainda há os que morrem e ninguem sabe onde morreram ou como morreram ou mesmo porque morreram.
O porquê de se morrer ninguem entende... mas todos são unanimes em dizer que a morte faz parte da vida. Portanto que fique claro, nós todos vamos morrer um dia, porque todos nós vivemos uma vida. Essa vida pode ser de 100 anos, de 24 anos, de 10 anos, de 2 anos, de 1 mês, de 1 dia... mas a vida não é singular. A vida é algo plural, ou seja, a nossa vida está interlaçada e portanto dependente de outras tantas vidas... dos nossos amigos, dos nossos familiares, dos nossos animais de estimação, de outras pessoas que nem conhecemos, e até de outros animais que nós não gostamos e que, muitas vezes, até nos apetece matá-los nós próprios, como é o caso das moscas e das melgas, por exemplo...
Como tal, a morte está sempre próxima de nós. Mas de maneiras diferentes. Todos nós sabemos que vamos morrer... mas o que dói é saber que os que nos são próximos – amigos, colegas e familiares – também vão morrer um dia. E o sentir que podemos perder alguem que nos é próximo e querido, é a pior razão de existir da morte. A nossa vida está de tal maneira interlaçada junto das vidas daqueles que nos são próximos que perder essas vidas é o pior pesadelo que nós podemos ter. Mas esse pesadelo persegue-nos ao longo de toda a nossa vida, até ao momento em que somos nós que morremos e são os outros (ou talvez não) que sentem na pele um pesadelo tornado realidade.
Como disse, tenho a alma triste e enlutada, porque um amigo meu faleceu nestes dias, de uma forma súbita e inesperada. A dor que se abate no meu coração é ténue, talvez por o facto de as nossas vidas se terem cruzado muito no passado, mas nunca de uma forma tão solene e forte. Fomos amigos, falavamos muito, conversávamos muito, riamo-nos muito, brincamos juntos em criança... sinto pesar e dor na partida deste amigo... e muita saudade também. Mas talvez o facto de actualmente só nos vermos apenas quando nos cruzávamos na rua, a minha dor não passa disto... a tristeza que sinto que deveria sentir, não a sinto com tanta força. E sinto-me um mau amigo por isso. Este amigo faz-me falta, e sinto a falta dele, mas a tristeza que sinto é tão ténue, tão ligeira... como se fosse apenas um “até um dia”, e não um “adeus” definitivo. Mas a dor que esta morte provocou noutros é tão forte, tão dura, que fico envergonhado não a sentir.
Quando me recordo dele, vém à cabeça situações vividas em criança, com nós aqui na minha rua, numa altura em que poucos carros andavam na estrada ainda. A estrada era nossa, de putos de idade entre os 6 e os 10... era o nosso campo de bola. Num lado duas camisolas e dois bones faziam de balizas, do outro eram duas moxilas... dum lado 4 grandalhões de 8 e 9 anos, do outro 4 meia lecas (eu e mais 3 de 6 ou 7 anos). Era os 1ª classe contra os 3ª classe... e a jogatana que se seguiu... sei que levamos um tareão, também eramos mais novos. Mas o que fica é a alegria dele a jogar, não para ganhar, para para se rir e divertir. Nós, os putos, lá estávamos a jogar sózinhos, quando chega ele e os amigos... vinham da escola e queriam jogar à bola antes de jantar. Então decidiram “desafiar” os putos da 1ª classe que estavam ali. E nós aceitamos, porque tavamos fartos de “jogar à parede”. E a partir daí, mesmo na escola, ficou marcada uma amizade, não daquelas fortes, mas de respeito. Sempre que nos víamos, era uma festa... apertos de mão, palmadas nas costas, meter a conversa em dia... foi assim desde esse jogo, até ao dia de ontem em que ele morreu, horas depois de ter estado comigo, à porta de casa, a contar que tinha vindo “lá de baixo (alentejo)” e que ia descansar para ir trabalhar... perguntou-me pela escola, coisa que invejava em mim, o facto de não desistir dos estudos... e acabou a dizer até logo, e que provavelmente ainda nos viamos hoje, porque ele era motorista dos TCB e dizia que ia ficar na carreira 2, naquele dia... ia entrar ao serviço às 16h... eram 15 h quando a mãe deu com ele num sono do qual não ia mais acordar, para grande pesar de todos os que lhe eram mais próximos.
É isto que me vem à cabeça quando penso neste amigo. Não numa tristeza grande, não num cantil de pranto, não um irracional grito de injustiça... apenas e só um sentimento de que perdi um amigo, uma saudade grande e sobretudo a recordação desta pessoa. E o que recordo? Os jogos de futebol, o ele me defender dos rufias mais velhos na escola primária, dos calduços que ele me dava quando me apanhava desprevenido, das inúmeras conversas que davam sempre para rir e divertir, das aulas de técnicas de química, do 11º ano, em que ele e o prof desatavam em conversas de chacha e teorias e contra teorias que ele levantava, que punham toda a gente na sala a rir... É disto que me lembro dele, e em vez de me dar para chorar, dá-me vontade de sorrir porque não me recordo dele de outra maneira.
De certeza que o nome dele não vai ser dado a uma rua... de certeza que não vai ter o nome numa enciclopédia e que não vão fazer bibliografias sobre a curta vida do João Paulo Rosas. Mas todos os que com ele estiveram não vão perder estas memórias que tém dele. E sem dúvida que estas memórias são mais importantes de serem lembradas do que todas as que eventualmente poderiam ser colocadas num livro. A vida é isto mesmo. Não é o que lemos, é o que vivemos com essas pessoas que se vão. Muitos confudem a vida com história... a história retratata e relembra os feitos dos que já partiram. Mas mais importante de ver o nome gravado num livro de História é ter as pessoas com quem se viveu e conviveu ao longo da sua vida relembrarem aspectos significativos da sua personalidade. E estes são os verdadeiros epílogos para as vidas que deixam de estar entre nós. Não há qualquer vida que possa ser lida e relembrada... há as vidas que se vão e cuja partida faz com que dentro de nós, uma flash back seja iniciado e assim as memórias mostram-se bem vivas.
E essa é a prova que se viveu uma vida: as memórias que os vivos mantém vivas e relembram no adeus. Tenha ela sido de 100 anos, 24 anos, 10 anos, 2 anos, 1 mês, 1 dia, o que for... foi uma vida vivida. Estou a terminar mas tenho de recordar a história de um rapaz de 8 anos que certo dia me contou uma história sua... de ter ido ver o seu “maninho” Rui ao cemitério, que se fosse vivo hoje tinha 14 anos. Ele nunca conheceu o seu mano, que morreu com meses de idade ainda. Mas é notório que a mente dele sentia, naquela conversa, a sua falta... mais uma vez a prova que o Rui, apesar de curta, viveu uma vida e ajudou outros na vida deles...
Esta foi a minha forma de lembrar um amigo que tive e que faleceu... não é um manifesto como os outros, é mais uma reflexão que tive de fazer, não para voces, mas para mim próprio e para outros que o conheciam também. No entanto, de certa forma, é um texto que até pode ser bem aproveitado por aqueles que o lerem. Daí o ter decidido enviar para todos voces...
Um abraço a todos
Um abraço a ti João, que, onde quer que estejas, sei que também vais ler este texto... Fica bem e até sempre!!
A morte chega a todos, sem excepção. Umas vezes mais cedo, outras mais tarde... mas não há ninguem que lhe escape. O mais rico dos ricos morre... o mais pobre dos pobres morre... o mais esperto morre, o mais burro morre, o mais forte morre... o mais fraco morre... o mais rápido, o mais lento, o maior, o mais pequeno, o mais velho, o mais novo, o mais belo, o mais feio, enfim... todos, sem excepção, vão acabar por morrer. E no lugar do cheiro, da voz, do corpo, o que fica é simplesmente a memória dessa pessoa. O que fica é a recordação do que essa pessoa fez, para ela e para outros. Todos, mesmo sem quererem, deixam um legado que varia consoante o que se faz. Uns tém direito a ver o seu nome e a sua história retratado ao mais ínfimo pormernor em livros... outros tém direito a breves resumos da sua vida em enciclopédias... Alguns tém direito a ver o seu nome imortalizado numa rua, num animal, numa rocha, numa montanha... outros que se resumem a ver o seu nome numa simples campa, com a data de nascimento e a data de óbito. Outros há que deixam de ter recordação no lugar onde estão enterrados... e ainda há os que morrem e ninguem sabe onde morreram ou como morreram ou mesmo porque morreram.
O porquê de se morrer ninguem entende... mas todos são unanimes em dizer que a morte faz parte da vida. Portanto que fique claro, nós todos vamos morrer um dia, porque todos nós vivemos uma vida. Essa vida pode ser de 100 anos, de 24 anos, de 10 anos, de 2 anos, de 1 mês, de 1 dia... mas a vida não é singular. A vida é algo plural, ou seja, a nossa vida está interlaçada e portanto dependente de outras tantas vidas... dos nossos amigos, dos nossos familiares, dos nossos animais de estimação, de outras pessoas que nem conhecemos, e até de outros animais que nós não gostamos e que, muitas vezes, até nos apetece matá-los nós próprios, como é o caso das moscas e das melgas, por exemplo...
Como tal, a morte está sempre próxima de nós. Mas de maneiras diferentes. Todos nós sabemos que vamos morrer... mas o que dói é saber que os que nos são próximos – amigos, colegas e familiares – também vão morrer um dia. E o sentir que podemos perder alguem que nos é próximo e querido, é a pior razão de existir da morte. A nossa vida está de tal maneira interlaçada junto das vidas daqueles que nos são próximos que perder essas vidas é o pior pesadelo que nós podemos ter. Mas esse pesadelo persegue-nos ao longo de toda a nossa vida, até ao momento em que somos nós que morremos e são os outros (ou talvez não) que sentem na pele um pesadelo tornado realidade.
Como disse, tenho a alma triste e enlutada, porque um amigo meu faleceu nestes dias, de uma forma súbita e inesperada. A dor que se abate no meu coração é ténue, talvez por o facto de as nossas vidas se terem cruzado muito no passado, mas nunca de uma forma tão solene e forte. Fomos amigos, falavamos muito, conversávamos muito, riamo-nos muito, brincamos juntos em criança... sinto pesar e dor na partida deste amigo... e muita saudade também. Mas talvez o facto de actualmente só nos vermos apenas quando nos cruzávamos na rua, a minha dor não passa disto... a tristeza que sinto que deveria sentir, não a sinto com tanta força. E sinto-me um mau amigo por isso. Este amigo faz-me falta, e sinto a falta dele, mas a tristeza que sinto é tão ténue, tão ligeira... como se fosse apenas um “até um dia”, e não um “adeus” definitivo. Mas a dor que esta morte provocou noutros é tão forte, tão dura, que fico envergonhado não a sentir.
Quando me recordo dele, vém à cabeça situações vividas em criança, com nós aqui na minha rua, numa altura em que poucos carros andavam na estrada ainda. A estrada era nossa, de putos de idade entre os 6 e os 10... era o nosso campo de bola. Num lado duas camisolas e dois bones faziam de balizas, do outro eram duas moxilas... dum lado 4 grandalhões de 8 e 9 anos, do outro 4 meia lecas (eu e mais 3 de 6 ou 7 anos). Era os 1ª classe contra os 3ª classe... e a jogatana que se seguiu... sei que levamos um tareão, também eramos mais novos. Mas o que fica é a alegria dele a jogar, não para ganhar, para para se rir e divertir. Nós, os putos, lá estávamos a jogar sózinhos, quando chega ele e os amigos... vinham da escola e queriam jogar à bola antes de jantar. Então decidiram “desafiar” os putos da 1ª classe que estavam ali. E nós aceitamos, porque tavamos fartos de “jogar à parede”. E a partir daí, mesmo na escola, ficou marcada uma amizade, não daquelas fortes, mas de respeito. Sempre que nos víamos, era uma festa... apertos de mão, palmadas nas costas, meter a conversa em dia... foi assim desde esse jogo, até ao dia de ontem em que ele morreu, horas depois de ter estado comigo, à porta de casa, a contar que tinha vindo “lá de baixo (alentejo)” e que ia descansar para ir trabalhar... perguntou-me pela escola, coisa que invejava em mim, o facto de não desistir dos estudos... e acabou a dizer até logo, e que provavelmente ainda nos viamos hoje, porque ele era motorista dos TCB e dizia que ia ficar na carreira 2, naquele dia... ia entrar ao serviço às 16h... eram 15 h quando a mãe deu com ele num sono do qual não ia mais acordar, para grande pesar de todos os que lhe eram mais próximos.
É isto que me vem à cabeça quando penso neste amigo. Não numa tristeza grande, não num cantil de pranto, não um irracional grito de injustiça... apenas e só um sentimento de que perdi um amigo, uma saudade grande e sobretudo a recordação desta pessoa. E o que recordo? Os jogos de futebol, o ele me defender dos rufias mais velhos na escola primária, dos calduços que ele me dava quando me apanhava desprevenido, das inúmeras conversas que davam sempre para rir e divertir, das aulas de técnicas de química, do 11º ano, em que ele e o prof desatavam em conversas de chacha e teorias e contra teorias que ele levantava, que punham toda a gente na sala a rir... É disto que me lembro dele, e em vez de me dar para chorar, dá-me vontade de sorrir porque não me recordo dele de outra maneira.
De certeza que o nome dele não vai ser dado a uma rua... de certeza que não vai ter o nome numa enciclopédia e que não vão fazer bibliografias sobre a curta vida do João Paulo Rosas. Mas todos os que com ele estiveram não vão perder estas memórias que tém dele. E sem dúvida que estas memórias são mais importantes de serem lembradas do que todas as que eventualmente poderiam ser colocadas num livro. A vida é isto mesmo. Não é o que lemos, é o que vivemos com essas pessoas que se vão. Muitos confudem a vida com história... a história retratata e relembra os feitos dos que já partiram. Mas mais importante de ver o nome gravado num livro de História é ter as pessoas com quem se viveu e conviveu ao longo da sua vida relembrarem aspectos significativos da sua personalidade. E estes são os verdadeiros epílogos para as vidas que deixam de estar entre nós. Não há qualquer vida que possa ser lida e relembrada... há as vidas que se vão e cuja partida faz com que dentro de nós, uma flash back seja iniciado e assim as memórias mostram-se bem vivas.
E essa é a prova que se viveu uma vida: as memórias que os vivos mantém vivas e relembram no adeus. Tenha ela sido de 100 anos, 24 anos, 10 anos, 2 anos, 1 mês, 1 dia, o que for... foi uma vida vivida. Estou a terminar mas tenho de recordar a história de um rapaz de 8 anos que certo dia me contou uma história sua... de ter ido ver o seu “maninho” Rui ao cemitério, que se fosse vivo hoje tinha 14 anos. Ele nunca conheceu o seu mano, que morreu com meses de idade ainda. Mas é notório que a mente dele sentia, naquela conversa, a sua falta... mais uma vez a prova que o Rui, apesar de curta, viveu uma vida e ajudou outros na vida deles...
Esta foi a minha forma de lembrar um amigo que tive e que faleceu... não é um manifesto como os outros, é mais uma reflexão que tive de fazer, não para voces, mas para mim próprio e para outros que o conheciam também. No entanto, de certa forma, é um texto que até pode ser bem aproveitado por aqueles que o lerem. Daí o ter decidido enviar para todos voces...
Um abraço a todos
Um abraço a ti João, que, onde quer que estejas, sei que também vais ler este texto... Fica bem e até sempre!!

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