Pasmaceira
Cada vez fico mais pasmado com o que nos permitem a assistir "in loco" a folhear jornais, a ouvir radio e a ver os telejornais. Perdeu-se a vergonha toda e tudo é feito demasiado às claras. Seja na política, seja no desporto, seja inclusivé na vida popular. Mas vamos por partes:.
1) Relativamente ao desporto, está mais que falado neste blog, e eu volto a referir. É vergonhoso o que se passa na imprensa dita desportiva. Em primeiro lugar, desporto nesses jornais é FUTEBOL, porque é o que vende... em segundo lugar FUTEBOL nesses jornais é BENFICA, porque é o que vende. Então, porque vende, vamos lendo as entrevistas do Luisão, do Saviola, do Javi Garcia e, porque vende, vamos lendo tambem nas "entrelinhas" que o Benfica vai ser campeão, que é fantástico ser-se jogador do Benfica, que o ambiente é espectacular, que o Benfica vai ser campeão, porque é o que vende. E tenta-se, sem vergonha absolutamente nenhuma, camuflar a vontade da própria linha editorial dos mesmos jornais, que é que o Benfica seja campeão, porque é o que vende. E para isso, porque é o que vende, mascara-se nas capas, nos destaques e nos próprios textos uma propaganda que visa tornar um "motivo nacional" que o Benfica seja campeão, denegrindo as acções dos adversários, criando casos nos adversários e procurando, assim, passar uma imagem de "imaculação", para o Benfica, porque é o que vende, e outra negra, suja e imoral na parte dos opositores, porque isso tambem é o que vende. É o que vende, logo dá direito para "mascarar" intensões, opiniões e tudo o mais, em prole de um agente, neste caso o Benfica, e assim fazer de todos os outros feios, porcos e maus. E isto passa-se às claras nos jornais desportivos e nas televisões. E as pessoas (as afectas ao "clube da maioria" aceitam, porque é o que querem e gostam de ouvir. Louvar o glorioso SLB, defender o SLB quando não tem defesa e menosprezar tudo o que vem dos rivais. Se um elemento do Braga insulta um do Benfica, tem de levar 3 jogos de suspensão. Se um elemento do Benfica insulta um do Nacional, tem de levar uma festinha de compreensão e seguir para o próximo jogo. Se um elemento do FC Porto se insurge contra uma arbitragem, num corredor de acesso aos balneários, é um proscrito e deve ser castigado com veemencia. Se um elemento do Benfica segue os próprios árbitros até à sua cabine para os insultar e ameaçar, deve ser compreendido porque são atitudes próprias do estado "quente" de um jogo "quente". Se um jogador do FC Porto agride numa jogada dura um adversário, é um assassino que não tem lugar no futebol. Se for um jogador do Benfica, fica a convicção e a ideia de que esse jogador é fiel cumpridor das regras, que não é agressivo e que foi apenas um "lapso" que deve ser castigado mas não severamente, pois o tal atleta é boa pessoa. É esta a diferença de trabamentos entre um Bruno Alves e um David Luís/Javi Garcia. E nós lemos, ouvimos e, alguns, assobiam para o lado como se fosse natural, outros (como eu) pasmam-se com a vergonha que isto é e outros aceitam porque "é o que vende"...
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2) Fico pasmado quando eu ouço dizer que o "jornal Nacional de Sexta" sai de linha da TVI por pressão do governo PS. Depois de ver (poucas é certo) o referido programa, de salientar a fraca qualidade da mesma linha editorial, no trato das noticias e dos assuntos. Péssimo jornalismo, péssima postura. Porque vende... Vende um jornalista não ter papas na lingua. Vende um jornalista criar enredos. Vende um Jornalista falar mal do "poder". Vende um jornalista fomentar novelas da vida real, de ataque aos poderosos e de defesa aos fracos. Vende dar a ideia de que tudo é mau, tudo é péssimo. Então, e porque vende, os jornalistas deixam de ser sérios. E o caso do Jornal da TVI é clarificador de uma jornalista que se privou da seriedade para se mostrar "sem papas na lingua" e em vocacionar ataques violentos às imagens do poder, mesmo quando grande parte de notícias avançadas se provavam ser desvirtuadas, incompletas e, não poucas vezes, totalmente falsas. Para se fazer notícia, deixa de ser necessário ter fontes. Basta um bom argumentista, uma boa tese de conspiração e a imaginação e o "espírito crítico" e a vontade de corroborar a ideia feita do "tudo isto é uma merda" nasce e desenvolve-se nas mentes da plebe. O jornalismo deixa de ser real para se tornar miseravelmente argumentativo.
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3) Para, mais uma vez, porque vende, fica bem que entre um artigo de um eterno crítico do governo que acusa o mesmo de linchamento, com base numa suposta conversa de café entre o primeiro ministro, um ministro e um outro gajo qualquer, ouvida por um elemento numa mesa próxima, que é conhecido de um familiar de um amigo do tal crítico, e a verdade suprema e absoluta, seja dada total valorização ao artigo. E fica mal ao editor do jornal, defendendo esse raro jornalismo sério, isento e ético, de querer apurar verdades não com base num singelo diz que disse mas num contexto efectivamente SÉRIO, não permitir a publicação do mesmo artigo. Defende-se o jornalista que entendeu seguir o mau jornalismo... ataca-se aquele que não o permitiu e acusa-se o mesmo de "censura". O tal crítico é posto num pedestral de quase mártir (assim como a mulher da boca grande) como exemplo vivo (daí ser quase mártir) de um objecto censurado. E faz-se crer que o que eles próprios fazem, quando entendem fazer jornalismo com base em enredos e não em factos, é jornalismo, ignorando a abusiva censura que se processa, em nome do que realmente se vende.
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4) E vamos agora ao Correio da Manhã, outro exemplo do magestoso jornalismo em Portugal. Porque vende dotar o país de uma imagem sanita entupida quase a transbordar de merda, mais uma vez usa-se o enredo, usa-se a novela da vida real e dá-se valor aquelas notícias que realmente são notícias mas que não reflectem exactamente a nossa sociedade. Os portugueses não são só pedófilos, violadores, membros de gangs violentos, assaltantes de cara tapada armados com facas e pistolas, corruptos, benfiquistas, anti portistas, anti sportinguistas, anti pinto da costa, fanaticos que não suportam um coração destroçado, doentes em fase terminal, vítimas de burlas, burlões, incompetentes, negligentes, entre tudo o que vem retratado. Mas quem folheia esse jornal (e eu faço questão de assegurar que folheio mas que não o compro) é isso que vê... é que esse tipo de notícias é o que surge impresso naquele jornal. Vão ao cúmulo de, para manter a imagem, de dar como notícia que uma carrinha de transporte de materiais na guarda foi roubada e que levaram 10 garrafas de água natural e um casaco! Isto porque vende retratar o que está mal. Vende falar do que é penoso.
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Fico pasmado a assistir a esta censura que nos atinge abertamente. Sob o argumento do "é o que vende", filtra-se a notícia. E nós, conformamo-nos, de braços cruzados, assobiando para o lado ou então, como eu, ficando pasmados com o estado a que as coisas se desenvolvem. A verdade verdadeira não interessa... o que interessa é o que vende. E assim lá vamos indo, a caminho do futuro, cada vez mais limitados nas nossas falsas liberdades.

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