Reflexão (continuação do Post Anterior)
Durante 50 anos, fez-se cingir a ideia de que a utilização das Bombas Atómicas foram absolutamente necessárias para que a guerra terminasse mais depressa, já que o Japão não tinha interesse em terminar a guerra com uma capitulação e estava preparado para lutar até ao fim. Mas nos últimos 10 anos, a ideia que se solta é bastante diferente. Consta que, durante o mês de Julho de 1945, Hirohito enviou emissários a propor à URSS que mediasse junto de americanos e ingleses, o fim das hostilidades. Foram também "soltas" ideias vagas de que o Japão queria encontrar uma solução para o fim da guerra. Verdade também que todos sabiam que o Japão não queria sofrer a vergonha de uma "derrota" nesta maldita guerra. Não há honra na rendição. Não há dignidade nem valor numa capitulação. Era isto que baseava a estrema vontade dos militares japoneses de lutarem pela sua nação, relegando as suas vidas para segundo lugar.
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Não quer dizer com isto que eles não quisessem a paz... Talvez não a procurassem com a definição pretendida pelos aliados, mas eles não suportavam mais esta guerra. Já não havia combustível para os aviões. Já não havia aviões. Já não havia barcos. As munições estavam esgotadas. Praticamente não tinham meios para continuar a combater. Como disse anteriomente, a única arma prática que restava aos japoneses era a determinação com que lutavam sem, rodeios, os americanos. Muitos japoneses morriam fruto de bombardeamentos dos aviões ameridanos. Mas a maior parte morria já de fome e de doença.
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Os japoneses eram uma nação moribunda. Apesar da determinação em querer lutar até ao fim, eles próprios sabiam que a derrota e uma capitulação eram inevitáveis. Poderia durar um dia, um mes, ou um ano. Mas sabiam que não havia chances de vitória. Hirohito sabia disto, e já preparava terreno para uma capitulação que fosse o mínimo humilhante possível. O próprio príncipe (filho do imperador) foi enviado para solicitar a Staline que mediasse o fim da guerra.
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Os americanos também sabiam que era uma questão de tempo até a guerra terminar e que era inevitável a sua vitória. O que queriam evitar a todo o custo era uma invasão do próprio Japão, pois sabiam que a resistencia interna seria quase insuportável e muito custosa, do ponto de vista de vidas humanas. Isto mobilizou Truman a procurar na Bomba Atómica uma solução menos custosa e mais rápida para acabar finalmente com a guerra... Mas terá sido apenas esta a razão?
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Como já disse, o próprio Hirohito estava a preparar terreno para a inevitável capitulação. Stalin comunicara aos outros chefes aliados, em Postdam, desta iniciativa japonesa... partida do próprio imperador, que enviara alguem da sua família. Era um sinal que a paz estava ao alcance, não de mais matança, mas de conversações. Os americanos estavam determinados a uma "rendição incondicional" por parte dos japoneses. Não tolerariam qualquer tipo de condições nessa capitulação.
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Mas o povo japones continuava na amargura e estava a morrer lentamente, sem comida com fracos meios de subsistencia, fruto de um "cerco" e bloqueio cerrado que os aliados elaboraram. Estimava-se que, mesmo sem invasão do Japão, este capitularia em meados de Outubro, por já não aguentar, por muita determinação que os mais obcecados tivessem.
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Claro, era uma estimativa... que não foi valorizada. A guerra tinha de terminar o mais rapidamente possível. E com uma arma daquele calibre, ela haveria mesmo de terminar. E havia outro motivo para usar a bomba. Todos sabiam, já naquela altura, que Stalin não era de confiança. Eram aliados, mas todos sabiam que os interesses de Stalin não se limitavam à "reconquista", mas também à "conquista", não apenas terras mas sobretudo de influencia e gestão. A 2ª Guerra Mundial terminou na Europa, os vitoriosos celebraram em conjunto, mas ficou no ar um sentimento de que a guerra poderia ter uma continuação. A qualquer momento, as tropas da URSS estavam prontas para entrarem em território sobre administração Britanica, francesa ou americana. E todos sabiam que os meios presentes na Europa eram claramente desiquilibrados para o lado da URSS. Caso esta quisesse, não haveria dúvidas que poderia continuar a sua marcha pelo resto da Alemanha, prolongando ou iniciando uma nova guerra. Tal não aconteceu, é certo, mas muitos temiam que tal pudesse acontecer.
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A bomba foi usada para duas razões: terminar a Guerra mais depressa e com "menos custos" para os aliados... e sobretudo para dar a conhecer à URSS e ao Mundo o verdadeiro poder desta nova arma... que não hesitariam a usar sem problemas contra os seus inimigos.
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Passados 60 anos, a discussão sobre a necessidade de usar esta arma sobre as duas cidades japonesas mantém-se. Muitos não tém dúvidas que era inevitável o uso da bomba. Outros acreditam veemente que foi desnecessário. Entretanto houve uma "guerra fria", em que as duas maiores potencias militares do mundo se intimidavam mutuamnte com o seu poder nuclear. Aquilo que evitou um desastre maior, foi a imagem de ver Hiroshima e Nagasaki renascidas em Nova York ou Moscovo, em Londres ou em São Petersburgo (na altura Leninegrado), em Paris ou em Kiev. Felizmente, Hiroshima e Nagasaki não se repetiram. O confronto entre as duas potencias não passou de uma "Guerra Fria". Mas o medo do nuclear perdura e cada vez mais, países desejosos de entrar no clube, vão procurando criar a sua primeira bomba.
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A memória de Hiroshima e Nagasaki nunca serão esquecidas... se foi algo inevitável ou não, já não tem interesse. Aconteceu e teve repercussões em todos os níveis... e isso é tudo o que nós, actualmente, temos a lamentar e, por irónico que pareça, agradecer...
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Foi há 60 anos... o dia em que a humanidade tomou consciencia de que tinha o poder divino de se extinguir... mas não o direito! Esperemos que todos os seres humanos tenham esta consciencia, para o bem de todos nós...

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