A Sinceridade
Uma das coisas que mais é valorizado eticamente e moralmente na nossa sociedade é a sinceridade e frontalidade de cada um, em dizer o que acha sem falsidades ou mentiras. Mas o que é certo é que muitos poucos são os que regem a sua vida com sinceridade absoluta. Há sempre alguma coisa que não dizem, alguma opinião que reservam ou um comentário que fica solto em pensamento, mas não se liberta em voz. E outra certeza é que muitas pessoas, apesar de defenderem frontalidade para elas, não são capazes de aguentar algo que é exposto frontalmente... e reagem negativamente à sinceridade dos outros...
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Há sempre algo que nós guardamos para nós. Será que estamos a ser sinceros, quando estamos a conversar com uma rapariga, bem boa... quando fazemos um esforço doido para nos concentrarmos na conversa em si, e deixarmos as tentações da carne para outra altura... será que não deveríamos, por via da sinceridade, dizer-lhe abertamente "olha, desculpa mas és mesmo boa... e estou a fazer um esforço para ligar ao que estás a dizer, mas é bem complicado, por isso fala mais devagar, por favor!!"... acho que não!! Há quem se diga defensor da sinceridade, mas sinceramente não acredito que a rapariga não se sentisse um tanto ofendida e chateada, e não virasse as costas (também depende da relação que se tinha com ela)...
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E isto é um facto. Quanto mais a confiança que se tem com uma pessoa, mais à vontade estamos para ser sérios frontais. Quando não conhecemos nem confiamos em alguem, muitas vezes abstemo-nos de ser totalmente frontais e verdadeiros. Será que estamos a ser sinceros, quando o nosso patrão, que nós só conhecemos de vista, nos fala e liberta um odor da boca insuportável? Não acredito que seja muito boa ideia dizer que o homem cheira mal da boca, mas nunca se sabe...
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Quase sempre, há contenção quanto ao ser absolutamente sincero e frontal. Podemos considerar apenas a sinceridade como o acto de não mentir. Mas será que a ocultação de "verdades" e opinões nossas não influencia aquilo que os outros vêem em nós próprios? Não estaremos a "mentir" sobre a nossa verdadeira realidade, sobre aquilo que verdadeiramente pensamos? Mas é uma das formas de sermos aceites na sociedade, e torna-se um bem assumido por toda a gente. sermos sinceros, mas não verdadeiros, pelo menos não totalmente verdadeiros. haverá sempre alguma coisa que deve ser contida.
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E os políticos dão o exemplo... São "sinceros", mas super falsos. São capazes de ter esta ou aquela opinião, mas por motivos e estratégias políticas, tém alturas próprias para a divulgar. Outras vezes, as suas frases são de tal maneira subtis, que podem ter tres ou quatro significados, que os defendem de qualquer eventualidade. E a quantidade de vezes que eles se abstém de exprimir uma opinião ou responder a uma pergunta. A sinceridade torna-se estratégica. Ser-se sincero, quando convém... ser-se enigmatico noutras alturas... ser-se falso a toda a hora.
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Portanto, é lógico pensar-se que a ideia de moral e a etica, que "exigem" que o pessoal seja sério, sincero e frontal, é muito gira... Mas não é prática numa sociedade como a nossa, em que as mentalidades ainda são mesquinhas e tragicamente falsas.
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