terça-feira, maio 03, 2005

Manifesto dos Cravos

To Ginja, o Maravilhoso, de regresso, após um período alargado de ausência. Regressa numa altura em que se celebra mais um ano da Revolução dos Cravos. Foi na madrugada de 25 de Abril de 1974 que a revolução se meteu na estrada. Um dia que muitos celebram e a todos tocou, para o bem e para o mal (sim porque não foi um mar de rosas para todos). Muitos, como eu, não eram nascidos nessa altura, mas pelos relatos de tempos passados, sem dúvida que as mudanças vividas com esse dia foram significativas.
O blá blá blá do 25 de Abril é repetido ano após ano nesta época… e sem dúvida que o grande To Ginja não tem intenções de se referir novamente aos factos amplamente divulgados. O que já se conhece, que sejam outros a contar… agora o que não se conhece, isso é outra história. Eis que aí está o segredo e o porquê deste Manifesto: a origem da Revolução de Abril. To Ginja conseguiu (só ele sabe como) reviver as emoções e excessos de um dia especial e alguns acontecimentos importantes que se deram então… e está aqui hoje, sob a forma de uma sumptuosa espécie literária, uma artística encruzada de letras e palavras, o toque subtil das teclas no aparelho e a sua livre espontaneidade no que confere a elaboração deste texto subtil e concreto.
Mas já chega de introduzir mais um grande manifesto… Está na altura de entrarmos no Mundo do To Ginja e vivermos, como ele viveu, as emoções e experiências que permitiram o acontecer daquele dia que tocou multidões. Fiquem com o Manifesto dos Cravos, de To Ginja, o capitão.

Manifesto dos Cravos
by To Ginja, o Cravista

25 de Abril de 1974 será uma data a lembrar durante vários anos, como foi o 1 de Dezembro de 1640, como foi o 5 de Outubro de 1910 e como são outras tantas datas, marcadas no nosso calendário como “Feriados Nacionais”. Ainda bem que se deu o 25 de Abril, mais que não seja para termos os nossos fins-de-semana prolongados (se bem que por vezes, como foi o caso de 2004, a maior parte dos feriados seja ao fim de semana). Mas os feriados tém mais significado do que um simples “dia de folga”. Por exemplo, o 1 de Dezembro de 1640… houve gente que deu a vida só para que nós pudéssemos ter um feriado uma semana antes de outro, 23 dias antes do Natal, 30 dias antes do ano novo, etc, etc… houve gente que se sacrificou para que o ano não fosse apenas de trabalho e escola, para que os meses de um período ou semestre lectivo não fossem seguidos e só com folgas aos fins-de-semana ou em situações de “baixa” quando estamos doentes.
Para muitos, o significado de um feriado não passa disto mesmo: a hipótese de descansarmos; o porquê de se celebrar este ou aquele dia com a tal folga passa para traz das costas; sabe-se o que aconteceu para ser feriado, e damos graças para tal ter acontecido. E celebramos tal acontecimento com um descanso merecido.
Ainda bem que temos feriados! E ainda bem que no dia 25 de Abril alguém deu azo a que se desse uma Revolução, como deve ser, e ainda por cima a uma semana do 1º de Maio. Dois feriados numa semana é algo mágico. Há anos em que temos feriado à terça (com fim de semana prolongado, quase sempre) e depois, na segunda feria seguinte temos 1 de Maio. São dois fins-de-semana grandes. Foram uns mestres, aquela gente que compunha o MFA e que organizou o nosso 25 de Abril. De qualquer das formas, poderiam ter escolhido um outro dia, digamos dia 7 de Maio, para termos o feriado 1 de Maio e o então 7 de Maio organizados de maneira a que dessem descanso umas boas semanas depois das férias da Páscoa e servisse como aviso sério ao povo que as férias grandes vém a caminho.
Mas já chega de inércia e falemos realmente do que interessa neste Manifesto: o episódio que dá origem do 25 de Abril de 1974. Toda a gente já viu o filme da Maria de Medeiros (ou será Inês?? Bom não me recordo…) e lá retratam bem os acontecimentos deste dia. Podemos inclusive dizer que esse filme é o Episode IV (para os adeptos da Guerra das Estrelas) e o que se deu naquele dia teve origem em outros. As coisas não se passaram por acaso e os chamados Capitães de Abril passaram muitas horas e muitos meses a discutir imensas situações que não passaram naquela tela. E estes encontros são peça importante numa revolução, que agora celebramos com uma folga ano após ano. Como tal, aqui fica o Episode I do 25 de Abril, o que explica como surgiu a ideia daquele Golpe de Estado.
Para que não hajam confusões: a ideia de revolução surgiu por acaso. Alguns dos chamados capitães gostavam de ter estas escapadelas e encontrar-se para tomar uns copos em casa uns dos outros. Ora, certa vez andavam lá com uns copos a mais e alguém teve uma ideia “E se fizéssemos uma Revolução pá? Tipo, acabarmos de vez com a ditadura, pá! Era fixe, um gajo poder dizer o que pensa pá, deixar de ter de andar aos tiros na selva, pá!”. Os outros riram-se e começaram a puxar por ele… “tão mas Otelo, conta lá isso melhor… o que é que te vai na alma rapaz?”. E o Otelo, que estava com aquelas iluminações que nós tantas vezes temos, fruto de uns copos a mais, responde logo “imaginem poder falar mal do Marcelo pá… imaginem ter um Marcelo a poder falar mal de vocês pá… imaginem gente do governo a desmistificar os “Marcelos” que por aí andam pá “. Ora, esta conversa não fazia sentido nenhum. Na altura ainda não havia o “Marcelo” que nós aguentamos aos domingos à noite. O único Marcelo assim conhecido era o Marcelo Caetano, presidente do Concelho… claramente, o gajo tava bêbado e não dizia coisa com coisa, mas lá continuaram a puxar por ele, que a conversa estava agradável. “Imaginem, um domingo à noite, o pessoal chega a casa pá, janta e tem logo no telejornal o Marcelo pá a falar mal! Imaginem televisões privadas! Imaginem mudarmos para o Canal 3 pá e vermos duas loiras boas como caraças pá, filhas de um comunista, a rodear um paneleiro de bigode e perinha, a apresentar um programa que se baseia num gajo a encornar a namorada pá … mas no final, depois de chamar feia à gaja que anda a comer, à frente da gaja que está interessado em dar uma trinca, ele e a feia fazem as pazes e ganham uma viagem ao Brasil pá… isto é que era televisão pá!”.
Os outros não paravam de rir. E ele continuou “Imaginem, pá, termos canais de televisão Pornográficos! Termos os miúdos, em casa pá, a olhar o canal «codificado» com cara de parvos, a tentar perceber imagens que lhes preenchem a curiosidade pá… Imaginem termos televisão por cabo, em vez de por antena pá… imaginem telefones portáteis pá, computadores ligados por uma rede que se chamará Internet pá, ter chats na Internet, com gajos de quarenta anos a bater couros a pitas de 16, putos de 13 a engatar gajas de 20s e tais pá… isto era liberdade pá! Podermos navegar livremente e fazer blogs a gozar com o governo pá e ate levantar boatos mentirosos sobre quem nós quisermos pá, e nada nem ninguém pá poder fazer nada sobre isso pá”. Era a risada total!! Ninguém percebia nada do que ele estava para ali a dizer (internets, chats, blogs). Ninguém parava de rir, havendo mesmo gente “mijada” com a situação”. “Oh Otelo, conta mais, conta mais…”
“Imaginem um gajo poder acusar outros sem provas pá. Imaginem como seria se houvesse liberdade pá para fazermos dois julgamentos pá… um num tribunal e outro com a opinião pública, em que o importante era a opinião das pessoas pá, não os factos pá. Imaginem um «segredo de justiça» que toda a gente conhece pá. Se a justiça não funcionasse pá, ainda era possível queimar um gajo pá, que mesmo inocente, nós não gostássemos pá. Imaginem estarmos na NATO pá, imaginem termos uma assembleia eleita pelo povo português… e pelas mulheres também pá (esta frase soltou gargalhadas ainda mais fortes) … Imaginem 4 partidos… não 5 partidos na Assembleia da República. Sim, e um deles ser o Partido Comunista… melhor ainda, imaginem os Comunistas e outros ainda mais à esquerda que eles, tipo Bloco à Esquerda da Esquerda… E um partido do outro lado, à direita da direita… e uns insultarem-se com nomes de tipo Radicais de Esquerda pá, e outros pá Estrema Direita. Imaginem pá, era bem divertido a vida assim… Os debates na televisão entre eles pá… era o rir pá! Fogo, a sério pá, imaginem lá o Cunhal e o Soares num debate na televisão!”
“Isto tudo seria possível, sei lá pá… daqui a uns 25 ou 30 anos pá, depois da revolução (a parte do Soares e do Cunhal era um pouco antes claro) mas era mesmo fixe pá… bora lá, vamos fazer uma revolução. Isto o pessoal anda farto da guerra, está farto da PIDE, está farto do Marcelo… temos de mudar isto pá… O pessoal anda farto de novelas e programas sem interesse… Queremos séries da América pá, programas em que se fecha pessoal numa casa pá e os deixam lá a fazer pela vida pá, com as câmaras a filmar tudo o que eles fazem pá… ver sexo real em canal aberto pá… Melhor ainda, ter pessoal conhecido pá… tipo, imaginem o Eusébio, o Damas, a Amália, a Simone, o Zeca Afonso, o Raul Solnado, o Roberto Carlos, eu sei lá mais quem pá!! Fechados numa Quinta a tratar de porcos e vacas pá e tudo o mais… já viram como seria engraçado pá?? Vamos fazer uma revolução pá… vai ser muito giro pá!!
Toda a gente se ria com aquilo, e com o avançar da noite, os copos abundavam, as garrafas vazias aglomeravam-se e já havia mais gente ao lado do Otelo. “Eh pá Otelo!! Estamos contigo… mas como vai ser essa revolução?”
“Podemos preparar tudo agora pá… temos tempo, e não custa muito planear uma revolução… estamos em Portugal pá!!”. “Vamos a isso então. Primeiro: escolher um dia tem de ser a primeira coisa a fazer… o dia da revolução”. Numa altura em que todos já estavam bem regados, alguém, começaram a sair datas. “Vamos marcar para dia 4 de Junho!!” “eh pá mas tas parvo?? Esse é o dia da Independência dos EUA. Não dá essa, temos de ir para outra” “ya… escutem pá, temos o dia 1 de Maio! Podíamos fazer antes do 1 de Maio, e assim tínhamos logo grandes manifestações dias depois da revolução pá” “eh pá Otelo, essa é fixe… que dizem dia 20 de Abril?? Até tem melodia boa e tudo” “TÁS PARVO??? Tão um gajo faz uma directa e amanhã chegas de ressaca a casa, achas que a tua mulher vai ficar satisfeita?? Tens de usar o fim-de-semana para reconciliar as coisas com ela!! Ainda por cima, diz-me quantas vezes na história já se fizeram revoluções ao fim de semana??” “Pois tens razão… na pode ser num fim-de-semana… que me dizem a uma quarta?” “atenção à Taça dos Campeões Europeus!! Pode haver jogos nessa altura, e é logo altura de meias-finais pá” “então uma quinta???” “acho que há quinta não há problema… vá fica uma quinta” “ora bem, fazemos dia 25 ou dia 18 do mês de Abril, o que acham melhor?” “Como há o dia 1 de Maio, se calhar não ficava mal fazermos dia 25. Tipo, assim dava para termos dois feriados com 6 dias de intervalo… o que era excelente!!!” “boa, então tá decidido pá… 25 de Abril sempre!! Até soa bem pá! Vai ser um grande feriado, na me chame eu Otelo!” “Vasco, o Otelo não és tu, é aquele que está ali a fazer da mesa almofada”.
Como o sol estava a despontar, deram o encontro por encerrado. Foram todos para casa, com uma grande ressaca, à excepção de um, que era Major… era o único que estava sóbrio, o chamado “100%cool”, a quem foi incumbida a tarefa de despejar todos aqueles “maestros” em casa. E algo apoquentou a alma daquele major, de seu nome Melo Antunes. Os outros “deliraram” umas ideias que até seriam capazes de resultar, pelo que ele tratou de guardar os lenços com os manuscritos feitos pelos seus camaradas e decidiu, na próxima reunião, mandar-lhes tudo à cara, mas de forma sóbria, para ver a reacção deles.
Quando confrontado com aquilo, Otelo não se lembrava de nada, mas estava feito… e era crime a conspiração que ousaram fazer, enquanto bêbados. Mas de repente, Otelo e os seus camaradas, tiveram uma iluminação e não, não estavam bêbados… aquilo podia resultar e realmente, várias coisas podiam acontecer e tornar-se realidade. Liberdade de Expressão, fim das perseguições políticas, fim da PIDE/DGS, fim à guerra colonial, fim ao Absolutismo e à Ditadura… aquilo podia mesmo resultar, bastando para isso que todos estivessem do mesmo lado, unidos e preparados para tudo. Estava dado o mote para um dos momentos mais grandiosos da história de Portugal, uma das poucas revoluções que se fizeram sem derramamento de sangue, sem luta, sem saques, nada. Uma revolução civilizada
As reuniões e os encontros sucederam-se, com mais gente a entrar no grupo. Tudo graças a umas garrafas de JB, Vinho do Porto, Sagres, champanhe e absinto. Tudo misturado numa das bebedeiras que verdadeiramente mudou a vida aos intervenientes e a um povo à beira mar plantado. E tudo o que temos actualmente se deveu, em grande parte, aquilo que estes homens fizeram e pensaram… tudo se deu, num dia de Abril… tudo aconteceu na nossa Revolução dos Cravos.