segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Uma outra crise I

Ora cá estou eu novamente, de regresso após um período de interregno que durava desde o Natal. Nada de novo nestas bandas. E regresso para vos falar de uma crise. Não não vou falar da crise, propriamente dita. Não vou falar da crise do desemprego nem da crise que as empresas atravessam. A crise está por aí e toda a gente fala dela. Como toda a gente fala, eu faço um pouco de birra e teimo em não seguir a onda e dizer que a culpa é dos bancos, ou a culpa é do Sócrates, ou da falta de escrúpulos. Eu sinceramente, estou tão farto desta crise (que ainda está a começar) que me recuso a falar mais dela ou, sequer, a pensar nela.
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Mas a verdade é que já andamos em crise à alguns anos. Crise de moral e de ética, crise de ideias e pensamentos. E uma real crise de identidade, que não advém daquela crise que está tão em voga agora.
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Esteve esta sociedade presa e acorrentada, num jugo ditatorial que durou 60 anos. Quando as algemas se partiram, o povo explodiu e partiu em busca de conhecer algo que não teve durante todo esse tempo. Mas, passados 35 anos, voltamos a viver reféns e acorrentados. Desta vez, não de um governo. O jugo que agora se apodera e limita a nossa vida, advém da informação. Somos reféns da informação que temos e da que não temos. Vivemos reféns e vítimas do jornalismo. O jornalismo do odio, da intriga e do absurdo. O jornalismo das falsas verdades, das falsas informações. O jornalismo dos interesses e do poder.
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Não existe já uma entidade que regula o que é ou o que não é notícia. Mas existem motivações, que determinam junto dos jornalistas o que é notícia e merece destaque. Já não há Pide. A caneta azul agora é manuseada por outros. Estes praticam a mesma censura, sendo eles próprios a definir o que é notícia e o que não deve ser. Uns dizem que se se regem pelas regras de mercado, vendendo apenas as noticias que interessam e como interessam às massas. Justificam a sua censura com o que efectivamente determinam ser do interesse das pessoas.
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Chega-se ao ponto de uma notícia ser um produto qualquer de uma linha de montagem. Fabricam-se notícias com um suporte de palavras que não foram ditas, palavras que surgiram num contexto e que agora ganham um significado e uma relevância diferente e destoada da que tinha quando foi dita. Iludem-se as massas a tomarem opiniões e posições baseadas em meias verdades ou falsas verdades. A própria comunicação social aparece a definir, que nem um juíz ou juri, quem é culpado e quem é inocente, o que é justo e o que é injusto, o que está certo ou o que está errado.
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Vivemos uma crise de identidade porque as massas não têm pensamento. Vivem reféns da informação que passa e, sobretudo, da informação que não passa. A liberdade de decidir e de pensar não existia à 35 anos. Agora existe, mas está, logo à partida condicionada àquilo que é dado pela comunicação social. Vivemos reféns da distorção da informação, da falta de escrúpulos e da falta de decência de alguma comunicação social. Não de toda, mas de uma imensa maioria.
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Os exemplos flagrantes, temo-los no desporto, em que apenas o futebol tem destaque. Quando os três jornais DESPORTIVOS PORTUGUESES, ou seja de tiragem NACIONAL, destacam apenas uma modalidade, reservando umas 3 ou 4 páginas para o resto, vemos como vivemos reféns. O resultado disso é a completa desgovernabilidade nas restantes modalidades. Menos adeptos, menos praticantes e, sem dúvida, muitas delas, num risco severo de desaparecerem do léxico comum durante o próximo século. Quando, sob a tal desculpa do "mercado", se justificam estas opções com "ah e tal, o futebol é que vende jornais". É verdade que sim. Não menos verdade é que o assumem livremente e se conformam com essa realidade, com essa opção, não percebendo que censuram a restante informação. E portanto, as massas só tém futebol, futebol, futebol. É só isso que querem jogar, é só isso que querem conhecerr, é só isso que querem discutir. O resto não interessa. Condicione-se... Censure-se...
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A grande verdade é que não há alternativa, num regime e num sistema tão liberalizados. As regras do mercado justificam parte do que se faz. E as mesmas "regras do mercado" vão condicionar também o pensamento, a opinião e as acções das massas. Outras vezes não há regras de mercado, ou seja, não se faz a noticia que as massas querem. Em alguma escala as regras surgem arbitradas por grupos de indivíduos que, pelas mais diversas razões e influencias, regem a sua acção para induzirem indirectamente as massas a uma opinião e uma posição, ela própria condicionada à vontade editorial. Por exemplo, é fácil mandar abaixo um governo. Tão fácil como é mandar abaixo um árbitro que tomou uma opção polémica, certa ou errada. Tantas vezes, na política e no desporto, o certo está errado e o errado torna-se certo. É um tipo de propaganda, semelhante àquele que Hitler usou para mobilizar uma nação a um odio racial. Esta propaganda está, no entanto, num nível superior e mais evoluído. Não se designam directamente as acções ou as opiniões. Hitler acreditava numa coisa e induzia isso directamente nas massas. A propaganda que se faz agora, induz as pessoas a algo, mas não há uma entidade directamente a corroborar. Tentanto explicar melhor a coisa, com um exemplo político. Os políticos defendem o "politicamente correcto". De um modo, defendem que deve haver respeito pelo opositor e nunca na vida insultá-lo directamente. Mas não se chateiam nada se forem outros a faze-lo por eles. No desporto então, é do melhor. Um presidente não defende directamente que os seus adeptos deem porrada nos do outro clube. Mas a grande verdade, é que no seu próprio discurso incutem um odio e uma irracionalidade que se transmite para as massas. É esta a propaganda que se desenvolve no nosso tempo. Conduzem-se as massas de forma indirecta, condicionando, com o apoio dos media e da comunicação social subserviente, a informação que sai e a forma como sai.
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A liberalização não pode ser total. Tem de haver regras, a sociedade tem de impor regras, para que haja sim senhor liberalização mas não se restrinja a liberdade de outros. A liberdade de pensar e de agir. A propaganda não pode ser liberalizada. Não pode haver censura, mas a propaganda livre e sem regras condiciona-se por censurar informação tambem. É exactamente o que temos actualmente. Constantemente somos inundados com propaganda para mobilizar uma opinião contra A, B ou C, ou a favor de A, B ou C. E isto passa-se de uma forma tão natural, que há muito já deixou marcas na nossa sociedade. Basta olharem para os jornais desportivos e perceberem que, sob o cego argumento de "regras de mercado", se convergem capas e noticias para defender os interesses de uma entidade que não são as massas. As massas não querem ser inundadas com propaganda cublística, como acontece diariamente. As massas não querem ser inundadas com propaganda futebolística, como acontece de três anos e meio em três anos e meio (o quarto coincide com os Jogos Olimpicos, juntando as excepções que confirmam a regra e em que é dado, esporadicamente, mais destaque a outra modalidade). As massas querem verdade, querem realidade., querem seriedade, querem responsabilidade. As massas não querem censura, sob pena de a própria massa se tornar num absurdo idiota junto dos que estão lá fora.
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E sim, estamos em crise... estamamos, invariavelmente, numa crise de liberdade. Podemos pensar, falar, comentar, expor. Mas toldam o conteúdo com mentiras ou, apenas, meias verdades. Conseguem, moldar inclusivé o que é real para uma verdade completamente distorcida, contaminando assim o que pensamos. Trata-se de um perigo real e o resultado dessa definição já deixou ferida a nossa sociedade e vai continuar a definir invariavelmente o seu próprio futuro, perdendo cada vez mais sua própria identidade.