Coisas que me irritam profundamente (II)
Um dia destes, vinha a chegar do trabalho e deparo-me, ao fundo da minha rua, a uma azáfama de pessoas que rodeavam alguma coisa no chão… tentei espreitar e vi um pé virado para cima, indiciando que se trataria de uma pessoa ali caída. Estava rodeada de pessoas e apertavam-na ali naquele espaço. Parecia o Museu do Benfica, em que todos se esgueiram e atropelam para ver uma taça ou as velhas sapatilhas do Eusébio ou do Diamantino… toda a gente tinha de olhar pá mulher caída no chão e lançar o seu palpite: “Como é que ela está? Ai coitada… é a vida… já chamaram a ambulância? O que é que aconteceu?”. Depois há alguém que, normalmente, gosta de ser o centro das atenções e estas situações propiciam a sua afirmação “Eu vi tudo, ela sentiu-se mal e caiu ali mesmo onde está… pois acontece, deve ser da tensão ou da diabetes…”. E tem logo início uma conversa amena entre as pessoas que por lá andam “Ah pois, a minha cunhada coitada também tinha disso… tadinha, não podia ir sozinha para lado nenhum, que isto acontecia-lhe”… “Pois olhe, tenho uma prima, que é sobrinha da minha avó, que tinha um problema de tensão e de tempos a tempos também perdia as forças”… “Olhe ontem na novela, tava lá a Felícia que tomou uns comprimidos e não comeu nada e depois desmaiou na paragem do autocarro”… “Ah, pois era ontem que ia dar esse episódio… ela chegou a apanhar a camioneta”… “não, claro que não. Apareceu o Mário que a levou para casa e ela acabou por passar lá a noite”… “pois quem não vai gostar nada é o Gui… tá gira a novela”…
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Resumindo a desgraça alheia serve para atrair uma bombada de gente que se apronta naquela de poder-se afirmar socialmente junto dos demais. Fica uma história para contar, surgem condições para badalar outras histórias no próprio sítio e assim fomentar a necessidade que muitos tém de “ter atenção”… Tudo isto à custa de uma pessoa que, no meio da sua mágoa ainda tem de se prostar ali no chão, imóvel, a servir de utensílio para os cuscos.
Resumindo a desgraça alheia serve para atrair uma bombada de gente que se apronta naquela de poder-se afirmar socialmente junto dos demais. Fica uma história para contar, surgem condições para badalar outras histórias no próprio sítio e assim fomentar a necessidade que muitos tém de “ter atenção”… Tudo isto à custa de uma pessoa que, no meio da sua mágoa ainda tem de se prostar ali no chão, imóvel, a servir de utensílio para os cuscos.
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Detesto profundamente assistir à preocupação desenfreada de gentes que são atraídas à desgraça de uma pessoa que se sentiu mal ou se magoou na rua, apenas e só para alimentar mais paleio para a cusquice que vão ter, nos dias seguintes, com as vizinhas e com as amigas.
Detesto profundamente assistir à preocupação desenfreada de gentes que são atraídas à desgraça de uma pessoa que se sentiu mal ou se magoou na rua, apenas e só para alimentar mais paleio para a cusquice que vão ter, nos dias seguintes, com as vizinhas e com as amigas.

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